sexta-feira, 1 de agosto de 2008

à um hóspede triste



no silêncio da sala, tua chegada era lenta, muito lenta
quase insípida tua chegada a qualquer hora que fosse
parecia sempre esperar que lhe abrissem a porta
ou a alma como sempre imaginei um dia acontecer sem aviso
não eram outras as tuas roupas de ontem-amanhã
-quase sempre- com marcas de algum pecado antigo ou isso
e a forma com que me olhavas (sem por os olhos em mim)
mas em qualquer outro móvel e objeto que me significasse
era apascentar a peste que crescera pelo chão
com as noites, as manhãs, os dias, principalmente os domingos
dia-a-dia como os pássaros que não se entristeceram de vez
:e ainda pousavam
no chão, na escada, por debaixo das gaiolas dos seus que
não se debatiam mais nas prisões cotidianamente limpas
pelas mãos ásperas, contudo delicadas aos carinhos sutis e que vez em quando
chegavam de outros dedos ágeis e menos grossos
era quando podias rever a vida inteira
mas ainda fuguravam as sombras, as fotos e os sábados de calor
pediam mais de ti em silêncio que podias imaginar
eram quase gritos, quase berros cartográficos a delimitar
o passar dos anos, das comemorações, dos tristíssimos natais,
das histórias que de tão simples, poderiam ser escritas novamente
mas era deserto demais para tão pouca alma e água
ou seriam os caminhos que não davam em lugar de oásis?
por que dentro de muitos deles haviam outros dispostos
a levar a cabo todas as dúvidas, as súplicas, os nós?
não entendes? não sabes? não dizes? não podes? não?
quero mesmo saber? não?
...há tantas e tantas coisas (como já disse em muitas de nossas conversas)!
onde quase chegavamos a filosofar, não fosse o barulho incolor do vento a carregar
nossas poucas palavras, nossos raros risos, nossas horas, gestos
e voltávamos sem pressa ou rancor para dentro das pálpebras
talvez dessas tantas sensações ainda hoje se fabriquem homens?
se não, não acredito mais no mundo, nem nas despedidas.

Um comentário:

danúbia disse...

GOSTEI DO HÓSPEDE. ;)